Chegou o momento de perguntar: qual é, afinal, a prioridade do sindicato?
Críticos e integrantes da base (que pediram para não ser nominalmente identificados por receio de retaliação, mas cujas vozes são ecoadas em grupos de WhatsApp e assembleias) apontam um descompasso entre o discurso e a prática. O sindicato tem comparecido a eventos, recebido comitivas e emitido notas de pesar — atividades legítimas, mas que não podem se sobrepor às urgências da categoria.
Enquanto isso, três pautas emergenciais seguem travadas:
Recomposição financeira: a inflação acumulada nos últimos anos corrói o poder de compra dos servidores. Reajuste salarial e atualização do tíquete-alimentação são demandas que não admitem mais espera.
Equiparação ao piso nacional: carreiras inteiras recebem abaixo do que a lei estipula. A regularização jurídica e financeira desses servidores é questão de justiça.
Efetivação de ACEs e reforço na Zoonoses: agentes de combate a endemias que já preencheram os requisitos legais continuam sem a efetivação. Os desfalques no Departamento de Zoonoses comprometem o controle de vetores como o mosquito da dengue — uma questão de saúde pública.
Quando um agente de endemias não é efetivado, o combate à dengue perde força. Quando o tíquete-alimentação não é atualizado, o servidor da ponta — o atendente da UPA, o merendeiro da escola, o gari — sente no bolso a defasagem. Quando a Zoonoses opera com desfalques, a cidade inteira fica mais vulnerável a surtos.
A base não quer que o sindicato deixe de existir ou de se articular institucionalmente. O que se cobra é foco. Em um cenário de recursos públicos escassos e de pressão por resultados, a dispersão da pauta em agendas burocráticas dilui o poder de barganha da categoria. Pior: prolonga os prazos de atendimento das demandas prioritárias.
Do ponto de vista técnico, especialistas em relações trabalhistas no serviço público (como os professores da UFTM ouvidos reservadamente por esta coluna) reforçam que a credibilidade sindical se mede pela capacidade de converter diálogo em avanços concretos nas cláusulas econômicas e nas condições de trabalho. Não por número de fotos institucionais.
O fortalecimento da representatividade sindical depende diretamente da capacidade da diretoria em priorizar o que realmente importa. Não se trata de radicalizar ou romper pontes com o Executivo. Trata-se de negociar com seriedade, estabelecer cronogramas claros e, se necessário, radicalizar na transparência: divulgar as atas das reuniões, os prazos acordados, os avanços e os impasses.
A base não quer um sindicato de mesa-redonda. Quer um sindicato que entregue resultado.
A base já deu o recado. Agora é hora de a diretoria ouvir — e agir.
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